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1922
Data de Estreia no Brasil: 20/10/2017
Direção: Zak Hilditch
Distribuição: Netflix

Baseado em um conto escrito por Stephen King, “1922” se junta à “Jogo Perigoso” como já a segunda adaptação de uma obra do autor produzida pela Netflix em 2017. Clara e fortemente inspirado na obra de Edgar Alan Poe, o conto e, consequentemente, o filme, é contado a partir da perspectiva de Wilfred James em 1930, falando sobre como ele matou sua esposa em 1922. Com um quê de tragédia Shakespeariana, o filme dirigido e roteirizado por Zak Hilditch fala sobre o pesar e as consequências que, na ficção, comumente acometem o perpetrador de um ato terrível.

Muito mais drama do que terror, “1922” apenas se inspira em uma estética e em características do gênero para rechear sua narrativa com algumas metáforas que conferem ao filme um interessante ar de pesadelo. Assim, a recorrência de ratos ao longo do enredo traçam um paralelo com a culpa corroendo a mente de Wilfred. Outro aspecto narrativo interessante trazido por Hiditch é a narração em off do protagonista. Muito mais do que uma mera desculpa para nos explicar a trama (que é o que narração se tornou hoje em dia fora dos filmes do Scorsese), o relato de Wilfred serve para que estabeleçamos empatia com o personagem, apesar do fato de suas atitudes o colocarem na posição clássica de antagonista da história. Além disso, o fato de estarmos completamente confinados à sua visão dos acontecimentos borra completamente a linha entre realidade e delírio.

É importante considerar que, como dito anteriormente, “1922” tem uma forte inspiração em Poe e Shakespeare. Portanto, a tragédia não está necessariamente em algum arrependimento do personagem; seu sofrimento ao longo do filme se dá pelo fato de que seu mundo desaba ao redor de si, não pela culpa de ter assassinado sua esposa. Dessa forma, o roteiro consegue expandir a ideia original do conto e da premissa, criando interessantes elementos em torno de Wilfred para que a narrativa não se esgote no personagem ou fique repetitiva. Central ao enredo é a presença de seu filho Henry, um personagem complexo que possui uma atenção especial do roteiro e um desenvolvimento muito inteligente. Gosto também das figuras de Shannon e Harlan Cotterie, personagens por si só interessantes e que ganham um arco também envolvente.

Quando falamos sobre as abordagens desses personagens, o grande destaque é de fato Thomas Jane como Wilfred. Além de fazer um convincente e imersivo sotaque sulista, sua interpretação do obstinado e cínico fazendeiro é incrível. Contando com o auxílio da narração, Jane faz com que entremos na mente de seu personagem, entendendo sua postura calculista, pragmática e extrema através da sobreposição entre comentários e atitudes. Bem também estão Neal McDonough como Harlan e Brian James como o Xerife da cidade. Ponto fora da curva é Molly Parker. Ótima como a ardilosa Jackie em “House of Cards” a atriz falha em evocar qualquer tipo de simpatia para sua Arlette, parecendo apenas uma mulher mesquinha e egoísta. Grande parte deste problema deve ser creditado também ao roteiro, que neste ponto deveria ter se permitido escapar um pouco da visão de Wilfred, nos permitindo uma visão mais positiva sobre Arlette. Uma atriz mais carismática e conhecida do público também deveria ter sido utilizada nesta busca por simpatia com a personagem.

Se comete alguns erros em sua caracterização e desenvolvimento da personagem de Arlette, Zak Hilditch faz um ótimo trabalho de direção. Sua câmera de pouca movimentação e planos semi-abertos evoca “Sangue Negro” ao enfatizar a ambientação e conferir um ar sinistro e contemplativo ao filme. Ainda no aspecto visual, “1922” se beneficia de uma paleta de cores escura que representa iconograficamente a mentalidade sombria de seus personagens principais. A recriação de época é por si só um deleite visual, com excelentes escolhas de figurino e um ótimo design de produção, que se utiliza de um convincente CGI nas horas certas para nos imergir nos anos 20 americanos e dar dimensionalidade ao universo no qual o filme se passa.

Com todos estes elementos, “1922” consegue ser um competente entretenimento apesar de sua trama contemplativa, contando ainda com um final totalmente satisfatório para uma narrativa muito bem desenvolvida. Por que não lhe dei uma “nota” maior então? O problema é que, apesar de ser uma ótima experiência, o filme falha ao não conseguir trazer nada de muito novo ao arquétipo narrativo em que se baseia. Há uma enorme quantidade de outras histórias como esta, mas muito superiores, que acabam por eclipsar o filme e diminuí-lo. Em suma, “1922” é um filme não muito acima da média ou fora da curva, mas um extremamente competente dentro de suas pretensões e limitações.

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