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  • Notas de usuários (4 Votos)
    7.7

Annabelle 2: A Criação do Mal
(Annabelle: Creation)
Data de Estreia no Brasil: 17/08/2017
Direção: David F. Sandberg
Distribuição: Warner Bros.

           Feito às pressas para capitalizar em cima do estrondoso sucesso de bilheteria que foi “A Invocação do Mal” (2013), o primeiro spin-off da boneca Annabelle é um desastre de filme. Um roteiro ruim de Gary Dauberman e uma direção muito pouco inspirada por parte de John R. Leonetti resultaram em um filme muito mal recebido pela crítica, apesar de um sucesso absoluto de bilheteria (até por conta de seu baixíssimo custo). Como já era de se esperar, uma sequência foi anunciada e os fãs do terror se prepararam para mais um desastre. De fato, as expectativas não poderiam ser outras, uma vez que o roteiro do novo filme seria assinado pelo mesmo responsável pela trama de “Annabelle”. O que então fez com que se concretizasse o “efeito Ouija” e a sequência de Annabelle fosse infinitamente superior a seu antecessor? Em uma palavra: o diretor. O criativo e inspirado David F. Sandberg faz aqui um trabalho hercúleo para salvar o roteiro muito pouco inspirado de Dauberman, catapultando o filme da mediocridade certa para o patamar de um terror extremamente competente.

         Antes de mais nada, há de se considerar que a premissa deste segundo “Annabelle” é de fato consideravelmente melhor que a do filme anterior. Somos logo apresentados ao Sr. Mullins, criador da boneca Annabelle, e sua esposa e filha. Após um acidente na estrada, a menina (Bee) morre. Passamos então para 12 anos no futuro, acompanhando 6 garotas órfãs e a irmã Charlotte, que viajam em direção a casa dos Mullins em busca de um novo lar para o orfanato. A premissa é bem construída, criando uma situação praticamente inescapável para todas as meninas, que não possuem nenhum tipo de lar. No entanto, o roteiro peca imensamente ao não apresentar traços mínimos de personalidade para absolutamente nenhum dos personagens. Não que eu esteja exigindo um grande estudo de personagem em um filme de terror, mas um mínimo de caracterização é necessário para que saibamos quem são os personagens que acompanhamos e sintamos um pingo de empatia. Infelizmente, isso não acontece.

         Além da falta de um desenvolvimento mínimo por parte do roteiro, as atuações também não nos ajudam a estabelecer conexões emotivas com os personagens. Não há nenhuma atuação realmente ruim, mas também não há nenhum destaque. Enquanto a ótima Miranda Otto é completamente desperdiçada como Esther Mullins, seu marido Samuel se resume a andar pela casa e grunhir, tomando atitudes completamente sem sentido apenas porque o roteiro exige mais suspense em torno de sua figura. As atrizes mirins e adolescentes estão razoavelmente bem no filme, mas sua dinâmica interna é muito mal explorada e se resume à exclusão da garota com deficiência física, Janice, e sua amiga, Linda. As duas, por sua vez, tem um desenvolvimento muito pobre por parte do roteiro, tomando as clássicas e estúpidas decisões de ir explorar um local totalmente escuro no meio da noite, sem nenhum tipo de explicação plausível. Talitha Bateman (Janice) se sai bem na emulação de feições de uma garotinha que parece genuinamente assustada, merecendo elogios também por sua boa atuação física no que diz respeito a condição de sua personagem. Já Lulu Wilson se sai bem em boa parte do filme, mas faz algumas expressões muito exageradas, que parecem mais saídas de memes da internet e acabam por soar cômicas ao invés de assustadoras, atrapalhando um pouco da tensão.

          Estou no quarto parágrafo da crítica e até agora praticamente só apontei defeitos no filme. Como então posso afirmar que ele é bom? Simples: no sentido tradicional de desenvolvimento de personagem, criação de dramas críveis e empatia com os personagens, “Annabelle: a Criação do Mal” é tão falho e mal planejado quanto seu antecessor. No entanto, enquanto suspense e terror, o filme de David Sandberg funciona muito bem. Já nas cenas iniciais Sandberg imprime sua marca, optando por planos bastante inconvencionais, que cumprem muito bem o objetivo de desviar nossa atenção das falhas narrativas do roteiro. A edição também trabalha bem no sentido de manter o começo do filme bastante rápido e curto, nos impedindo de sentir muitos dos problemas da trama e nos compelindo diretamente em direção ao suspense. Sandberg faz um bom uso de jumpscares, misturando-os com um terror muito sugestivo que nos mantém na ponta do assento tentando adivinhar o que vem a seguir. O segundo ato do filme é certamente sua melhor porção, com uma quantidade enorme de sustos e uma sensação muito constante de suspense. Neste aspecto o filme é como uma montanha russa, onde vemos a próxima queda se aproximando, mas nem por isso somos capazes de não nos assustarmos com ela.

          A experiência de cinema proporcionada por “Annabelle: a Criação do Mal” é uma das mais envolventes que já tive com o cinema de horror. No entanto, é com pesar no coração que digo que ela dura bem menos do que poderia. Chega um ponto na narrativa em que a ausência de qualquer outro elemento interessante força o diretor a insistir demais em cenas criadas só para a criação do suspense, utilizando-se de muitas das mesmas técnicas e situações anteriores. A repetição da aparição de certos antagonistas acaba por reduzir em muito seu efeito, tornando a experiência um tanto quanto repetitiva no terceiro ato e dissipando um pouco da atmosfera de suspense que havia sido tão bem construída anteriormente. Aqui há também uma falha de Sandberg em reconhecer a péssima qualidade do roteiro e se apoiar ainda menos nele, construindo uma experiência mais curta (o ideal seria 1h30 de filme), mas também mais efetiva. Além disso, a falta de empatia com os personagens também contribui com o certo cansaço e distanciamento que vamos gradualmente sentindo em relação ao filme.

       Uma longa montagem de explicação da origem das aparições na casa dos Mullins põe a pá de cal no que começava a se tornar uma experiência cansativa, fazendo o filme perder muito de sua força antes mesmo de sua sequência final. De modo geral, meu maior desejo seria ver um tipo de mistura entre este “Annabelle” e o “Ouija” do ano passado. Aquela qualidade de desenvolvimento de personagens e cenários, misturado a efetividade do suspense aqui produzido geraria o filme de terror quase perfeito. Prejudicado pelo roteiro extremamente pobre de Dauberman, “Annabelle 2” não chega perto de ser uma obra-prima, mas é uma que pode se mostrar muito proveitosa para os fãs de terror, deixando o antecessor para trás com folga. Ahhhh se roteiro prestasse…

PS: Se possível, eu realmente recomendo que vocês vejam o filme no cinema, as reações da platéia e o clima de tensão que se espalha pela sala engrandecem a experiência do filme.

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