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Stranger Things
Drama/Horror/Mistério
Distribuição: Netflix
Criadores: Matt Duffer, Ross Duffer

            Lançada no último fim de semana, a nova série produzida pela Netflix rapidamente conquistou o mundo das séries de televisão. Contando com 8 episódios de aproximadamente 50 minutos, a primeira temporada de “Stranger Things” foi disponibilizada de uma só vez no serviço de streaming, algo que certamente contribuiu para seu sucesso. A história começa acompanhando Mike, Will, Dustin e Lucas, 4 típicos nerds dos anos 80 (período em que a série se passa) que passam os sábados jogando RPG no porão de Mike. Sua rotina muda quando, após um desses dias de jogatina, Will desaparece no caminho para casa. O evento perturba a vida de todos na pequena cidade suburbana de Hawkings e a partir daí todo o tipo de eventos intrigantes começam a acontecer em uma cidade cujo último caso de desaparecimento havia acontecido 20 anos atrás.

             Como deve ter ficado claro a partir da premissa, “Stranger Things” é repleta de homenagens e referências a clássicos filmes dos anos 1980. Porém, em um estilo muito semelhante ao “Super 8” de J. J. Abrams, a série dos irmãos Duffer não confunde referência e homenagem com falta de originalidade, conseguindo abranger uma variedade incrível de estilos e gêneros diferentes, que contribuem para a criação de algo extremamente autêntico e memorável. O grande mérito disso deve ser creditado a ambição e competência dos criadores, além da visão da Netflix em apostar e investir em uma série tão diferente, conseguindo reunir um grande elenco e alto valor de produção.

             Apesar do marcante estilo visual e narrativo, “Stranger Things” não seria nem de longe tão interessante não fosse pela alta qualidade e complexidade de quase todos os personagens envolvidos na trama. A série consegue algo raríssimo tanto na TV quanto no cinema: trabalhar de maneira fiel e autêntica a relação entre três gerações: crianças, adolescentes e adultos. Não há como negar que o espírito da série seja a dinâmica entre Mike, Dustin, Lucas e a misteriosa Eleven, porém “Stranger Things” acerta ao fazer com que o quarteto de crianças dividam o protagonismo com outros personagens. A narrativa também segue os interessantes Nancy (irmã de Mike), Jonathan, Joyce (irmão e mãe de Will, respectivamente) e o delegado de polícia Jim Hopper, sendo que todos eles conseguem segurar o protagonismo da história quando ela assim o exige, permitindo aos produtores explorar as situações e acontecimentos que se desenrolam na cidade a partir de diferentes perspectivas, ao mesmo tempo conflitantes e complementares.

           Em uma entrevista, Matt Duffer afirmou que a ideia visualizada pela série é a de que os personagens das diferentes gerações vivem em 3 universos distintos inspirados em filmes clássicos dos anos 80: os adultos atuam em um universo típico dos filmes de Steven Spielberg, como por exemplo “E. T.” (1982); os adolescentes habitam em um filme de terror, como “Halloween”; e as crianças em algo análogo a “Conta Comigo” (1986), de Stephen King e Rob Reiner. Nessa salada de referências, é divertido procurar pelos vários easter eggs que aparecem ao longo da série, como por exemplo posteres de “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e “Evil Dead” (1981). Além disso, é bastante perceptível que o estilo de filmagem se modifica de acordo com essas mudanças narrativas, optando por exemplo por uma iluminação mais escura nas cenas noturnas que envolvem os adolescentes Nancy e Jonathan. A série ainda satiriza de forma sutil temas muito presentes nos filmes da década, como a paranoia anti-comunista e a retratação de agentes governamentais lidando com situações inusitadas e fazendo o possível para escondê-las do público.

                Outro ponto favorável a “Stranger Things” é seu tom. A série consegue de maneira extremamente hábil lidar com uma série de emoções diferentes, fornecendo uma série de momentos extremamente agradáveis envolvendo a amizade entre as crianças protagonistas e momentos extremamente dramáticos e pesados, achando um bom equilíbrio entre os dois. O roteiro também consegue nos fazer sentir grande empatia e temor pelos personagens, sentimos que suas atitudes podem ter graves consequências e nunca é possível ter uma certeza inabalável de que tudo dará certo no final. Auxilia muito na construção deste tom uma excelente trilha sonora, contando com um ritmo muito presente que lembra os filmes de ficção-científica mais antigos. Além disso, “Stranger Things” tem um dos melhores usos de músicas que já vi em uma série de TV, com execuções de uma versão alternativa de “Heroes” e “Transmission” do Joy Division utilizadas no momento perfeito e que são capazes de mexer com o emocional de qualquer um.

                 A relativa curta duração da primeira temporada (a maioria das séries tem algo em torno de 12 episódios) faz com que os produtores possam achar um meio termo perfeito entre a duração de um filme, que seria curta para a história que pretendem contar, e a de uma temporada completa de TV, que os obrigaria a criar sub-tramas para preencher todas as horas de série. A curta duração e também a disponibilização de todos os episódios de uma só vez são muito favoráveis ao mistério que “Stranger Things” desenvolve, fazendo com que o desenrolar das atividades sobrenaturais se dê de forma bastante orgânica e espaçada, nos permitindo também assistir logo o próximo episódio para saber o que aconteceu, sem a necessidade de cliffhangers para prender o público.

                Apesar de ser impecável 90% do tempo, “Stranger Things” não é perfeita, contando com alguns momentos óbvios demais ou com acontecimentos e coincidências muito convenientes à narrativa. Porém, nenhuma dessas pequenas imperfeições é realmente capaz de prejudicar muito a série, que rapidamente caiu no gosto popular e adentrou o círculo das grandes séries de TV da atualidade. “Stranger Things” é mais uma série que comprova a capacidade da Netflix em produzir seu conteúdo próprio, e mal posso esperar pela continuação da história.

PS: Uma segunda temporada já foi confirmada pela Netflix e logo deve entrar em produção

Para mais textos sobre séries e filmes como este, acesse: http://historiaem35mm.blogspot.com.br/

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