Nossa equipe conversou com o solicito e educado produtor, diretor e escritor Renato Siqueira, do longa brasileiro O Diário de um Exorcista. Fizemos algumas perguntas e você confere agora o resultado desse encontro.

RdM:
O filme surgiu de um livro, do qual você é o autor, e este foi criado a partir de uma história real. Como foi que você desenvolveu a ideia de adaptar o caso?

Renato Siqueira: 
No final do ano de 2010, estava terminando as filmagens do meu curta Laços Violados (suspense / policial), e estava pronto para um novo desafio, mas eu me perguntava: “Qual seria esse novo desafio?” E a resposta veio como uma meta, produzir um Longa Metragem, com uma história inédita e surpreendente, algo que ainda não tivesse sido explorada no Brasil, pois o cinema nacional de ficção fantástica é quase escasso, seguindo sempre a mesma linha, apostando no realismo cru das comunidades carentes, policiais cariocas e traficantes. Certa noite adormeci no sofá de casa assistindo TV e as 2:00 hs da manhã acordei assustado com os gritos alucinantes que saiam da boca de Regan McNeil personagem do clássico O Exorcista, interpretada pela atriz Linda Blair. Após este susto pensei: “Por que não uma história de exorcismo no Brasil?”. Na contramão da tendência – e ciente da carência do público brasileiro, botei em ação o segundo passo que foi pesquisar na internet se já existia alguma obra cinematográfica sobre exorcismo, e através dessa pesquisa percebi que o único filme que explora o tema exorcismo no Brasil, foi o longa produzido em 1974 pelo cineasta José Mojica Marins (Zé do Caixão) chamado “Exorcismo Negro“. Outra coisa que me chamou a atenção, foi de não existir uma obra literária nacional sobre o tema exorcismo e a partir dai convidei o meu amigo escritor Luciano Milici para entrar no projeto se tornando uma das peças chaves, essenciais para a realização da obra. Foi ele que deu a ideia de lançar a obra literária antes do longa e como eu já conhecia o seu trabalho maravilhoso como escritor chamei-o para trabalhar no projeto e ele aceitou.

RdM:
Você escreveu, produziu e dirigiu o filme. Neste primeiro aspecto (a escrita do roteiro) como foi trabalhar a adaptação desta história a partir do seu próprio livro? Você já imaginava adaptá-lo para o cinema desde o começo?

Renato Siqueira:
Eu e o Luciano não só imaginávamos como adaptamos, simultaneamente, a mesma história para o cinema e a literatura. “Após muita pesquisa e entrevistas, chegamos a uma narrativa que caberia tanto às letras quanto ao audiovisual”. Optamos em lançar uma história verídica de exorcismo contada por um padre brasileiro. Então, saímos pelo Brasil a fora e achamos essa fonte, bebemos dela e com a autorização adaptamos para letras e para o cinema. Pesquisamos o contexto social e político da época do protagonista para apresentar ao leitor um cenário plausível. “A vida do padre e seu envolvimento pessoal com as entidades sobrenaturais desde a infância atravessam o tempo e passam pelas intensas mudanças do cotidiano interiorano dos anos 1950 e 1960”

RdM:
Ao final de sua produção seu filme foi direto para “on demand” no NOW sem sair em cartaz nos cinemas nacionais. Porque de tal decisão?

Renato Siqueira:
Foi um acordo, ou melhor, um contrato que fechamos com a Europa Filmes de lançar este filme direto em DVD e On Demand, intitulando-o como Zero, ficando “Diário de um Exorcista – Zero”, para assim produzirmos uma trilogia para os cinemas, com mais recursos e verba. Será uma super produção brasileira, umas das maiores já vistas no Brasil. O Diário de um Exorcista chamou a atenção das grandes empresas que agora querem um filme com todos os recursos possíveis para os cinemas.
As sequências se chamarão: Diário de um Exorcista – A Gênese do Mal, Diário de um Exorcista – Possuídos e Diário de um Exorcista – Apocalipse.  A Gênese do Mal começa ser produzida ainda este ano.

RdM:
Com tantos filmes abordando o tema “possessão”, como se diferenciar e apresentar algo novo?

Renato Siqueira:
Focamos em buscar uma história verídica brasileira. Levamos em conta o terreno perigoso no qual pisávamos. Temíamos encontrar charlatões, aproveitadores e farsantes; temíamos encontrar exploradores da fé e também temíamos não encontrar nada de verdadeiro. Quando encontramos uma linha legítima de pesquisa, passamos a temer realmente o quanto poderíamos documentar tudo sem nos envolver ou contaminar. Tentamos ser imparciais e céticos. Sendo assim, isso torna o filme diferente das outras obras, e mesmo porque o tema Exorcismo foi bastante explorado lá fora, já aqui no Brasil é novidade.

RdM:
Qual a maior dificuldade em trabalhar com o gênero terror? Você já pensa em outros projetos para depois da trilogia?

Renato Siqueira:
A pergunta certa seria trabalhar com cinema e não com o gênero. No Brasil fazer cinema já é um grande desafio e também um risco, pois os cineastas não recebem apoio e nem o devido valor que deveriam receber.
Ao invés de ficar esperando verba para produzir o filme, resolvi eu mesmo juntar dinheiro e investir em equipamentos, adereços, figurinos e locações. Quando obtive tudo isso, formei uma equipe de primeira que vestiram a camisa junto comigo para esse enorme desafio que estava para começar.
Doei 5 anos da minha vida para este projeto,  tive que estudar muito antes de começar a realizá-lo e com isso acabei trazendo para o Brasil uma inovadora técnica de maquiagem e efeitos visuais que aperfeiçoei durante esses anos. Apliquei-a no longa metragem e o resultado ficou excepcional. Além de produzi-lo eu também dirigi e atuei no filme, sem contar que a montagem e os efeitos especiais foram desenvolvidos por mim. Acho que esses foram os principais desafios.
Fora a trilogia, já estou envolvido em mais duas produções.

.perfo yuo

 

RdM:
Inevitavelmente nossos ídolos nos influenciam na produção de nossas próprias obras. Se pudesse nomear três diretores/roteiristas/artistas que admira e que lhe influenciam, quais seriam? E em relação ao “Diário de Um Exorcista”, qual obra, ou artista vem à mente como inspiração?

Renato Siqueira:
William Peter Blatty, Wes Creven, Thomas B. Allen, Stephen King.

RdM:
Em nosso podcast número 9 discutimos muito os problemas de se produzir um filme de terror no Brasil. Você pensa em sair do país para produzir cinema lá fora?

Renato Siqueira:
Gostaria de me manter aqui, mudar, crescer com o cinema nacional, mas se rolar uma proposta boa, com certeza irei!!!

 

RdM:
Para finalizar, chegou ao nossos ouvidos que o filme teve sua cota de coisas “estranhas” no set de filmagens, poderia contar algumas dessas pra gente?

Renato Siqueira:
– Em uma das cenas de exorcismo, um abajur começou a balançar misteriosamente. Não havia vento ou contato físico. Essa perturbação só foi percebida dias depois, na edição. A lâmpada desse mesmo abajur explodiu dias depois.
– Durante uma das entrevistas com um padre exorcista, Luciano e eu captamos um sussurro que, segundo o técnico de som da equipe, foi um vazamento causado pela interferência de uma rádio próxima.
– Enquanto eu explicava uma cena a um dos atores, um vaso do cenário foi misteriosamente arremessado ao chão e espirrou cacos de vidro em todo o elenco.
– Uma das ex-possessas é funcionária do Serviço Funerário Municipal de São Paulo. Para entrevistá-la, Luciano e eu precisamos encontrá-la após o expediente, que no caso dela terminava às 22h, no Cemitério da Consolação. A montagem do equipamento e a preparação dos materiais fizeram com que saíssemos do local às 2h da manhã.
– No único dia em que realizamos uma entrevista não gravada, levamos um assistente para anotar os pontos discutidos. Dias após a entrevista, o assistente voltou à casa do entrevistado para alinhar algumas informações e perguntou sobre uma incômoda estátua de coruja de olhos totalmente brancos que havia encima de um móvel, atrás do entrevistado. “Aquela estátua me assustou durante toda a entrevista”, disse o assistente. O entrevistado, homem sério e renomado, jurou que nunca houve estátua no local indicado pelo rapaz. Luciano e eu também não se recordamos de terem visto estátua nenhuma durante a entrevista.
– No quarto dia de gravação, duas quedas de energia quase impediram a gravação de duas cenas cruciais. Não foi detectado no bairro nenhum incidente pela companhia elétrica.
– Por duas vezes, o escritor e o cineasta receberam ligações não identificadas de pessoas anônimas pedindo para que o livro e o filme não fossem realizados.
– Nos testes, uma jovem atriz teve de representar uma mulher possuída. Assim que eu gritei “Ação”, a garota começou a se debater, xingar e gritar. Sua voz parecia modulada, pois estava realmente grave. A equipe, de início, gostou, mas de repente, a euforia da jovem tornou-se grotesca. Apesar dos meus pedidos para que ela parasse, a atuação durou alguns minutos. Estranhamente, as luzes do estúdio se apagaram e, sem se intimidar, a jovem prosseguiu em seus espasmos e gritos. Membros da produção começaram a correr e a gritar com medo enquanto os urros a menina aumentaram. Assim que as luzes voltaram, a atriz cessou sua cena e perguntou como havia sido seu desempenho. Agradeci e disse que a contataria em breve, mas nunca mais a contatei.

 

Você poderá prestigiar Diário de um Exorcista – Zero a partir do dia 25 de maio de 2016 nas seguintes plataformas:  Now (NET), iTunes, Google Play, Youtube (pago) e GVT – VIVO ou adquiri-lo em DVD nas principais lojas do país, com diversos extras.

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