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    7.6

A Forma da Água
(The Shape of Water)
Data de Estreia no Brasil: 01/02/2018
Direção: Guillermo del Toro
Distribuição: Fox Film do Brasil

Indicado à 13 Oscars, “A Forma da Água” parece ser o “queridinho” das premiações em 2018. Por sua vez agraciado com duas nomeações, melhor direção e melhor roteiro, Guillermo del Toro confirma seu status de mestre quando o assunto é criaturas e suspenses “de época”. Colecionador de tudo o que se relaciona ao cinema de horror, o diretor sempre defende que a criatura deve ter uma marca visual facilmente identificável, tornando-se assim a alma do filme. Dessa forma, seu “A Forma da Água” se utiliza de um elemento sobrenatural para discutir relações de poder, sociais e econômicas, nos Estados Unidos dos anos 1960, a partir do ponto de vista de sua complexa protagonista, Elisa.

Muda desde o nascimento, Elisa foi encontrada perto de um rio, abandonada em uma cesta quando ainda era bebê. Vivendo em cima de um cinema antigo com seu vizinho e amigo, Giles, Elisa trabalha no setor de limpeza de uma secreta base de pesquisas avançadas próxima à Washington. Quando uma estranha criatura anfíbia é levada até o setor do Dr. Hoffstetler, Elisa é encarregada de limpar a sala que abriga o “animal”. Em um  destes momentos, Elisa acaba estabelecendo uma rápida e forte conexão com a criatura, baseada principalmente na sua mútua impossibilidade de fala.

Estabelecendo todas estas questões de forma sutil e gradual, “A Forma da Água” tem um primeiro ato encantador. Começando com uma narração em-off que estabelece seus elementos fantasiosos, a câmera de del Toro passa logo a acompanhar a rotina de Sally, em uma bela transição da fantasia propriamente dita para um cenário totalmente idealizado de um Estados Unidos dos anos 1960. Esta elaboração narrativa de um passado levemente fantasiado é muito bem-vinda, pois nos ajuda a crer na possibilidade da existência de tal criatura anfíbia naquela realidade, fazendo-a soar quase como um universo paralelo ao nosso.

Outro elemento muito bem introduzido é uma espécie de “crueza” de ações dos personagens, como por exemplo uma hilária cena de Elisa se masturbando e uma outra de uma mutilação, que dão ao filme logo em seu início um tom muito próximo ao de O Labirinto do Fauno. Como contraposição à pureza da conexão entre a criatura e Elisa, o roteiro se utiliza da crueldade de Richard Strickland, muito bem introduzido como o prepotente e cruel chefe de segurança da instalação.

Construindo as excelentes personagens a partir do ótimo roteiro de del Tero estão algumas atuações excepcionais. Michael Shannon está fenomenal como o arrogante e detestável Strickland, incorporando bem demais o tradicional e quase sempre hipócrita “chefe de família” do american way of life sessentista. Por sua vez, Richard Jenkins e Octavia Spencer dão performances sensacionais como os “misfits”, indivíduos que não se enquadram neste padrão social estabelecido, ela por ser uma mulher negra e ele por ser gay. Completando este quadro e transformando a trama basicamente em uma crítica a tais estruturas de poder está a Elisa de Sally Hawkins.

A impossibilidade de fala de Elisa é um interessantíssimo elemento de trama, mas força Hawkins aos limites do que um ator pode fazer. Incapaz de utilizar sua voz para imprimir tom, ênfase e emoção, a excelente atriz se apoia completamente em pequenos gestos e olhares para transmitir todas as suas complexas emoções. A câmera está sempre focada em Elisa e é a partir de seus olhos que vemos o mundo, nos encantando com seu altruísmo e desejo de pertencimento ao lado da criatura, que acaba de descobrir, mas sente que estava esperando por toda sua vida.

O único problema de “A Forma da Água” é seu miolo. Enquanto o primeiro ato é maravilhoso ao nos apresentar à trama e o terceiro a conclui no que constituí uma lindíssima história de amor, o segundo é só meia boca. Há um ponto em que o roteiro torna-se bastante previsível, dificultando um pouco o engajamento com a história que está sendo contada. Felizmente, no entanto, tal sensação passa rápido, e surge de novo em tela as fortes contraposições propostas e examinadas pelo filme, como amor/ódio, medo/desejo pelo desconhecido e profundas diferenças sociais.

Com uma câmera que parece ter um acesso belo e privilegiado a uma realidade alternativa que nenhum de nós pode alcançar, del Toro compensa estas falhas de ritmo e estrutura narrativa com ideias extremamente originais e relevantes, exploradas a partir de ótimos diálogos e rimas visuais. Uma montagem ágil e um design de produção maravilhoso concluem a obra funcional, divertida e bela que é “A Forma da Água”, da qual gostei muito, mas infelizmente por algum motivo não amei.

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