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Entrevista com Julio Santi diretor de O Caseiro

O Caseiro Entrevista

A República do Medo marcou presença na ultima terça-feira (14) na pré-estreia do terror nacional “O Caseiro” em São Paulo, conferimos a entrevista coletiva concedida pelo diretor e roteirista Julio Santi, o Roteirista João Segall, a produtora Rita Buzzar e todo o elenco do filme. Depois tivemos a oportunidade de bater um papo exclusivo com o solicito Julio Santi que escreveu e dirigiu esse longa que tem data de estreia prevista para o dia 23 de junho.

Confira abaixo nosso papo com Julio.

RdM:
Um dos aspectos que mais impressionam é a qualidade e o cuidado com o roteiro. Como surgiu a ideia de O Caseiro? E como foi a experiência de escrevê-lo junto com João Segall?

Julio Santi:
Houve de fato um cuidado com o roteiro. Muito estudo e muitos tratamentos. Muito trabalho mesmo. Coisa de um ano e meio, aproximadamente. Esse cuidado parece estar refletido no trabalho final, o que é gratificante de ouvir depois desse tempo todo – obrigado.

Sobre a ideia inicial: nasceu num almoço entre eu e o meu irmão, Felipe Santi. Tínhamos a ideia exata dessa estrutura: um protagonista que passa um final de semana numa casa de família, no interior. E o final, claro. Então sentamos periodicamente e escrevemos um argumento de 15 páginas (está guardado com muito carinho).

A segunda parte do desenvolvimento aconteceu meses depois, quando apresentei a história para o João. Nós tivemos o trabalho todo de escrever, repensar, colocar as ideias à prova. Tivemos ideias novas – foi muito trabalho mesmo. Eu comecei escrevendo para teatro, e sempre escrevi sozinho. A parceria com o João foi uma descoberta muito reveladora.  Acho que a gente estava com entusiasmo de contar essa história (de chegar ao final de maneira orgânica), também, estávamos com o entusiasmo de descobrir os mecanismos do thriller. Acho que há uma admiração e respeito mútuo, o que incentiva a criatividade, e não reprime. É muito prejudicial, em qualquer área, alguém reprimir um trabalho em andamento — a gente tem muita ideia ruim, escreve muita cena ruim, usa muita muleta — só que elas são necessárias… pois a ideia boa, a cena boa, elas vêm a partir desse mar de coisas não tão legais. Eu olho para trás e vejo que as melhores coisas do filme vieram com muito trabalho.

E neste ponto, trabalhar com o João foi ótimo, pois a gente entendeu isso — que precisa errar pra acertar. E aí, a criatividade multiplicou bastante. Foi como se a gente usasse uma lupa o tempo todo.

RdM:
Percebe-se que o filme não se define apenas por um gênero, já que aborda elementos investigativos e de suspense. Essa foi a ideia desde o inicio? Vocês começaram a escrever um filme de terror ou a ideia foi mudando aos poucos?

Julio Santi:
Sim – foi a ideia desde o início, já no argumento.

Como o protagonista não acredita em fantasmas, ele tem um método racional, e isso faz o plot investigativo ser o fio condutor da narrativa. Ao mesmo tempo, são raros os momentos em que a gente descola do protagonista: a plateia aprende a história junto com ele. Sempre gostei desse tipo de história. A gente fica dentro mesmo, quase de camarote. Em quase nenhum momento damos para a plateia informações que o Davi não tenha. Isso aumenta o suspense, acredito – não estamos querendo omitir partes da história, claro, mas sim tentar oferecer a experiência de estar junto com o protagonista o tempo todo.

Então, de um certo modo, o gênero do filme acompanha um pouco a visão de mundo do protagonista. O terror não depende de assombração ou não – mas do que ele pensa ou sente.

Acho também que a proposta, que o João comprou comigo, foi de não dar sustos gratuitos. Então, tentamos não fazer cenas com roupas do gênero, mas que a investigação do Davi fosse plausível — essa foi a nossa maior preocupação.

RdM:
Infelizmente o gênero suspense e terror não são comuns em produções nacionais. Quais as dificuldades em produzir algo assim no Brasil? E porque resolveu arriscar um terror/suspense logo em seu segundo longa?

Julio Santi:
Acho que parte das dificuldades são as mesmas para qualquer filme – orçamento, achar um distribuidor, um produtor que aposte no projeto, e assim por diante.

Uma segunda dificuldade, imagino, é quebrar um pouco o preconceito… Mas sou otimista. Acho que é um caminho natural as comédias estarem consolidadas, e gradativamente a demanda por outros gêneros aumentar — e surgirem mais filmes de suspense. Tem muita coisa vindo.

Acho que dirigir é sempre um risco (rs). Suspense é ótimo para aprender, de verdade. É um desafio pensar foto, imagens, construção de clima – e eu gosto muito desse tipo de filme, claro.

 

RdM: 
Durante o filme notei algumas tomadas de câmera que me remeteram a O Iluminado (The Shining) e acho impossível não comparar alguns aspectos com produções de M. Night Shyamalan. Quais foram suas referencias e inspirações para O Caseiro?

Julio Santi:
Eu estou achando muito legal ouvir muitos feedbacks – acho que muitas das referências que as pessoas falam são inconscientes, claro. Coisas que eu projeto no Caseiro a partir de filmes que gostei e que sempre em agradam.

O Iluminado é um filme referência, e sempre vai ser. Acho que a Julia tem um pouco do Danny — e a Bianca trouxe isso para mim já no primeiro dia do teste — essa introspecção toda. Claro: tem um corredor enorme e comprido na casa, então fazer cenas lá era inevitável até por conta do roteiro. Mas tem uma cena com as duas meninas que a gente fotografou usando a perspectiva como o Kubrick usava! Foi ótimo!

Sobre o M. Night Shyamalan, idem. Corpo Fechado, A Vila, O Sexto Sentido, Sinais – eu vi todos esses filmes inúmeras vezes, antes mesmo de saber que eu ia estudar cinema na vida. São ótimos. Acho que ele constrói uma atmosfera a partir do enredo, sempre tentando levar a gente para um lugar absurdamente inesperado. Então, é natural rever, tentar entender como ele faz isso – tanto em estrutura como visualmente.

Tem um filme que é muito bom, de um diretor muito bom: Prisoners, também. Muita tensão o tempo todo. É um diretor incrível, e um fotógrafo incrível também. Estudei muito em como deixar o estado de tensão o tempo todo lá.

Outro filme, roteiro fantástico, e que usa o steadicam muito bem é o What Lies Beneath, do Robert Zemeckis. É uma aula de direção. Tentei sugar o máximo que pude de lá também.

O Lobo Atrás da Porta é um filme que me inspirou muito também. É bem feito, bem escrito e muito bem dirigido – tem a vertente policial, que eu gosto. Ainda mais por ser uma produção nacional, me incentivou muito.

E aí, tem muita coisa que eu levantei de inúmeros filmes, claro. Os Inocentes, Jacob’s Ladder, Caso 39, O Orfanato, Os Outros, The Haunting, Let the Right One In, Dark Water etc. Tem muita coisa boa!

 

RdM:
O elenco mescla muita experiência com caras novas no cinema, alguns oriundos do teatro e televisão outros trabalharam com você em O Circo da Noite. Como foi a montagem e a escolha desse elenco e como foi escolha das meninas Bianca Batista e Annalara Prates?

Julio Santi:
A montagem foi orgânica. Eu, particularmente, gosto muito de ator que começou no teatro – se você estudou, a base é muito profunda. Muita gente fala isso, e não é por acaso. Já tinha trabalhado com a Denise Weinberg e o Fábio Takeo. Quando começamos com o Caseiro, é como se a gente retomasse o trabalho da onde parou. Aliás, é exatamente isso. E isso acho que fica no filme — a gente fala a mesma língua há anos. O Leopoldo Pacheco e o Bruno Garcia já tinham trabalhado com a Denise – então eles já tinham uma intimidade entre eles. O que facilitou muito pra ensaiar, dirigir, discutir ideias. É importante o elenco falar a mesma língua. A Malu Rodrigues tem 15 anos de carreira, e faz muito musical – tem a cultura do teatro nela. Muito profissionalismo, comprometimento – foi ótimo.

A escolha das duas meninas foi fácil. Tive sorte. Olhei muitas meninas, mas eu tive a sorte delas serem da mesma agência. A Luana (da Tribo) entendeu exatamente o que eu estava procurando. Depois que eu fiz um teste com elas, foi quase imediata a escolha.

 

RdM:
No elenco há duas crianças sem experiência no cinema. Qual a maior dificuldade em trabalhar com meninas tão jovens? E como dosar a inocência e a responsabilidade delas durante as filmagens?

Julio Santi:
Precisou de tempo de ensaio. Meses trabalhando toda semana, duas ou uma vez, dependendo da época. Eu e as duas por um período. O Fábio Takeo também as preparou bastante.

Elas são muito inteligentes: sabiam da responsabilidade – e eu não pude fazer nada. Foram muito profissionais. Os pais ajudaram demais.

Ao mesmo tempo, nunca falei com elas sobre isso. São crianças. E a responsabilidade não podia pesar nunca. Acho que não é uma questão de manter a inocência, pois elas sabiam o que estavam fazendo, a dimensão do projeto, e eu nunca me propus a esconder isso delas. Acho que o principal foi que elas confiaram em mim — mantiveram essa leveza o tempo todo pois eu tomei um cuidado enorme de mostrar que elas estavam em boas mãos – a equipe toda fez isso. Outra coisa importante é que eu as tratei com seriedade, mas leveza.

O resultado mais incrível: elas fizeram o trabalho delas, e não o meu. Elas ganharam certa independência: só assim para serem orgânicas. Vocês viram: elas fizeram planos sequência inteiros. Eu não precisei editar. Elas deram opção. E para isso, precisa de tempo, trabalho — como qualquer ator.

 

RdM:
Um dos pontos que mais me agradou foi a fotografia, principalmente no aspecto narrativo onde é muito importante. Como foi trabalhar com Uli Burtin e quais os desafios de filmar a noite e com pouca luz? 

Julio Santi:
O Uli tem muita experiência e, assim como eu, queria servir à história do filme. Quando a prioridade é essa, a discussão é profunda, sempre chegamos à consenso. Acho que tudo tem que ter um aspecto narrativo – é difícil muitas vezes encontrar isso. Mas é o coração do trabalho do diretor — tudo servir à história. Pra mim, era crucial que fosse assim. O visual ser a história.

 

RdM:
Esse é o seu segundo longa-metragem, mas apesar de jovem você já tem uma carreira estabelecida no teatro. Como foi sua transição do teatro para o cinema?

Julio Santi:
Sinceramente, não acho que estabeleci uma carreira no teatro. Tive só duas peças montadas, como dramaturgo. Claro, tem peça escrita que não foi montada. É uma curta trajetória, mas não um estabelecimento de fato. Claro – aprendi muito nesses anos estudando, com as peças montadas – foi um período intenso para mim. Mas falta muito!

A transição ainda está acontecendo. Acho que os meus primeiros curtas são teatrais ainda. E o primeiro longa é um falso documentário, o que foi ótimo — conversa muito com o teatro de várias maneiras.

 

RdM:
Não vale ficar em cima do muro. Teatro ou cinema? 

Julio Santi:
Cinema!

 

RdM:
E por fim a pergunta que todos fazem ao deixar a sala de cinema. Existem planos ou ideias para O Caseiro 2? 

Julio Santi:
Acho cedo ainda para pensar numa sequência. Existem circunstâncias óbvias, claro: o filme precisa de aceitação do público, as pessoas precisam querer. Acho que há caminhos que podem ser abertos que podem resultar numa história bem legal, mas vamos esperar!


Segue abaixo algumas fotos da coletiva e pré-estreia do filme

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Caseiro
Estreia no Brasil: 23/6/2016
Direção: Julio Santi
Roteiro: Julio Santi e João Segall
Produção: Rita Buzzar
Distribuição: Europa Filmes


Confira também nossa crítica do filme
http://republicadomedo.com.br/o-caseiro/

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