Como já comentou em diversas entrevistas, Jordan Peele teve enorme dificuldade de encontrar um final para seu “Corra!”. Para além do que é comum à todo processo criativo, o comentário social de seu filme torna tudo ainda mais complicado, uma vez que o desfecho da história impacta diretamente nossa visão sobre o importante problema que é tratado, e como devemos reagir à ele.

Sendo assim, Peele desistiu de um primeiro final, que chegou a ser gravado, mostrando Chris na cadeia. Condenado pelo assassinato de Rose, Chris ainda sente-se aliviado por ter interrompido aquele ciclo de violência e apropriação de corpos negros, mesmo que à custo de sua própria liberdade. Peele, no entanto, observando os movimentos de libertação como “Black Lives Matter”, optou por uma outra saída, que colocava Chris como um herói sem exigir-lhe um enorme sacrifício pessoal, o que indica um caminho de esperança.

Em uma entrevista recente, o diretor/roteirista revelou que pensou em vários finais para sua história, que não foram gravados. Em um primeiro momento, conta Peele, ele havia optado por um encerramento mais aberto de sua obra, que nos mostrava Chris tentando fugir da propriedade murada dos Armitage e encontrando um último obstáculo. O filme cortaria nesta parte e veríamos Rod alguns meses depois conseguindo entrar em tal lugar e conversando com Chris, que se olha num espelho de forma desconfortável e se utiliza de uma forma de linguagem estranha para dizer não conhecê-lo.

Estes finais alternativos de “Corra!” nos dão uma boa ideia de como um processo criativo pode se modificar com o tempo, de acordo com o humor e reflexão de seu autor. Nos dá também um olhar sobre as delicadezas necessárias à um filme importante como esta obra-prima de Peele para lidar com sua grande responsabilidade de apontar um caminho para combater a opressão cotidiana e sistêmica que critica. Ambos estes finais discutidos por Peele resultariam em um ótimo fechamento narrativo e temático, mas com o que foi finalmente optado, é muito mais provável que “Corra!” torne-se um clássico e mantenha sua relevância por muitos anos ainda a vir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *