Des Teufels Bad
Direção: Veronika Franz e Severin Fiala
Ano: 2024
País: Áustria/Alemanha
Distribuição: Plaion Pictures
Nota do crítico:
Terror aborda um capítulo sombrio da história
2024 foi um ano muito frutífero para o horror no cinema. Títulos como Herege, Longlegs e o aclamado A Substância ganharam os holofotes e dominaram a conversa entre os entusiastas do gênero. De thriller psicológico a body horror, os fãs foram bem servidos.
Mas houve um longa que não ganhou a mesma atenção: O Banho do Diabo, resultado da dupla de diretores austríacos Veronika Franz e Severin Fiala, responsáveis por títulos como Boa Noite, Mamãe (2014) e O Chalé (2020). Se nesses filmes a direção apostou em suspense e mistério, aqui a escolha foi outra: direta, sem rodeios e eficiente.
“Eu cometi um crime”.
É o que diz uma camponesa batendo na porta da Igreja, logo após soltar um bebê em queda livre na correnteza.
Assistindo ao trailer, temos a impressão de que se trata de um folk horror. O que não é mentira, mas ele é muito mais do que isso. O Banho do Diabo constrói uma agonia crescente e silenciosa que, ao contrário do que seu título sugere, não tem relação com o sobrenatural: seu terror reside em abordar a crua realidade de Agnes (Anja Plaschg), uma jovem recém-casada com Wolf (David Scheid), um pescador.
Antes de selar o matrimônio, temos um vislumbre de quem é Agnes: uma moça ingênua, curiosa e de muita sensibilidade. Uma mulher comum que está se preparando para cumprir o que é esperado dela (e de tantas outras na Áustria do século XVIII): formar uma família.
Inclusive, em entrevista ao canal do YouTube Howard’s Hunt, Veronika comenta como histórias de mulheres comuns deixam de ser contadas. Mulheres que não são o arquétipo de heroínas que a indústria enaltece. E aqui, Agnes é tudo, menos uma heroína.
Depois de uma cerimônia cheia de ritos patriarcais, não demora para Agnes ser absorvida por um casamento frustrante. Wolf não demonstra interesse sexual pela esposa e a rejeita repetidamente. Sua sogra a vigia, julga e repreende em tudo, sempre com um fanatismo religioso latente. Nem ajudando o marido no trabalho ela é bem-vinda.
Nas idas e vindas de Agnes pela floresta, ela se depara com uma cena macabra: um pequeno altar com o corpo decapitado de uma mulher largado para apodrecer e, principalmente, para avisar: quem cometer o mesmo pecado, terá o mesmo destino.
Agora a cena de abertura começa a fazer sentido.
O tempo passa e a mente de Agnes vai se deteriorando cada vez mais diante daquela realidade sufocante. Acompanhamos uma mulher cheia de vida ser subjugada pelo mundo ao seu redor, sem ter para onde fugir.
A interpretação certeira de Anja Plaschg retrata uma mulher profundamente deprimida em uma época que não entendia ou reconhecia a depressão. Melancolia era um sinal de que forças demoníacas estavam tomando o corpo, infectado com “o banho do diabo”. Em uma tentativa de “expulsar o mal” de Agnes, ela é enviada para uma espécie de clínica onde clérigos tratam os possuídos pela tristeza.
O tempo passa e sua angústia toma conta (dela e de nós), a ponto de Agnes tentar tirar a própria vida. E é aí que o contexto histórico se mostra imprescindível.
Até agora, o horror estava na desumanização da personagem, mas ele já existia na cultura, nos valores e nas crenças da época. No início da Idade Moderna, territórios como Áustria e Alemanha sofreram com a chamada “epidemia de suicídios”, cometidos majoritariamente por mulheres. Mas, em uma sociedade dominada por dogmas da Igreja Católica, o suicídio era o maior dos pecados. Suicidas não eram perdoados e estavam fadados ao inferno.
Em outra entrevista, desta vez para o portal de entretenimento RogerEbert.com, os diretores contam como tomaram conhecimento desse episódio na Europa após o contato com a historiadora Kathy Stewart, autora de um livro sobre o fenômeno conhecido como “suicídio por procuração”. Eles tiveram acesso aos documentos utilizados por Kathy em suas pesquisas, leram transcrições de interrogatórios e depoimentos de mulheres que cometeram crimes com o propósito de receber a pena de morte.
O suicídio era imperdoável, mas o assassinato, se o réu demonstrasse arrependimento genuíno e clamasse por perdão, não. Essa era a solução encontrada por mulheres cuja devoção à Igreja era tudo o que conheciam.
Para elas, ganhar a salvação, perante o risco de encarar o inferno por toda a eternidade, valia a pena. Isso é colocado no filme quando um homem do vilarejo tira a própria vida por ter sentimentos por outro homem. A comoção é geral, mas a Igreja não aceita sepultar o corpo.
O dilema de Agnes é posto: se ela tirar a própria vida, sua alma estará condenada. Mas de que adianta viver em uma condenação?
Mais do que uma reflexão sobre as consequências do fanatismo religioso, o filme é uma ponte entre dois mundos. O patriarcado ainda controla o corpo feminino e pressiona as mulheres a cumprirem inúmeros papéis, retirando sua agência e poder de decisão.
O mesmo pode ser dito sobre o capitalismo, que exige produtividade e lucro acima de tudo, um peso que, embora atinja todos os gêneros, é impiedoso com as mulheres. Tudo isso culmina em um colapso coletivo da saúde mental contemporânea. Hoje a saúde mental é minimamente abordada. Já mulheres como Agnes suportavam dores que não sabiam nomear.
O caminho escolhido por Agnes não é nenhum segredo. O prólogo do filme já entrega sua jornada. O horror é vê-lo acontecendo na tela quando o desespero da personagem finalmente ganha voz em uma cena bela e devastadora.
O Banho do Diabo é um folk horror? Sim. Um terror psicológico? Com certeza. Mas ele se consolida como um grande filme de horror ao trazer um capítulo da história que, a princípio, parece impensável e distante, mas quando olhamos mais de perto, vemos que não é bem assim.
Filmado em 35mm, o filme levou o merecido Urso de Prata pelo trabalho de fotografia de Martin Schlacht. Em alguns momentos, a forma delicada como Agnes vê o mundo flerta com um conto de fadas. Em outros, a floresta densa, cheia de vida, mas cercada pela morte nos transporta para paisagens similares às de A Bruxa (2015), de Robert Eggers.
O ar que cerca a protagonista pesa no peito de forma crescente graças a um design de som cuidadoso em suas escolhas, que, somado à trilha sonora composta pela própria atriz principal, Anja, vocalista da banda Soap&Skin (famosa por interpretar a música de abertura da série Dark), cria uma atmosfera tétrica e bucólica.
O filme perde força ao não explorar mais o conceito do título. Como funcionavam os centros espirituais aos quais as pessoas eram enviadas; seu principal pôster comercial mostra um dos “tratamentos” para expulsar o demônio do corpo, o que gera a expectativa de que iremos conhecer mais desse recorte. Com registros históricos nomeando até 700 pessoas acometidas pelo “banho do diabo”, o filme ganharia força em seu argumento.
As dinâmicas entre Agnes e outros personagens também são pouco abordadas. A motivação da personagem se beneficiaria com diálogos não expositivos com as pessoas do vilarejo, dando uma amostra do peso da religião naquela cultura. O roteiro opta pela sutileza e ela funciona, mas um argumento tão forte como o abordado em “O Banho do Diabo” merece mais destaque.
Em méritos técnicos, o filme cumpre a sua missão, mas o maior feito desta obra é a responsabilidade irretocável do roteiro e da direção, que retratam essa narrativa sem condenar ou enaltecer seus personagens.
“É muito difícil escrever sobre alguém assim e tentar fazer com que as pessoas a entendam. Era fundamental para nós que o público se identificasse com ela e sentisse empatia”, comenta Severin em entrevista durante o Festival Internacional de Cinema de Berlim.











