Crítica | The Night

The Night
Data de Lançamento: 29/01/2021
Direção: Kourosh Ahari
Distribuição: IFC Midnight


Cada pessoa carrega consigo arrependimentos, segredos, pecados. Todos são fardos que vão se acumulando em nossos ombros, que vão desgastando nossas almas até que se torne pesado demais ou que talvez com sorte consigamos levar tudo para a sepultura.

Isso é especialmente verdadeiro em relacionamentos, onde cada parte traz seus segredos para uma vida em conjunto. Dependendo do grau, esses segredos podem desgastar um relacionamento ou até mesmo significar a ruína de um casamento.

Isso e muito mais pode ser apreendido com o filme The Night (2021) dirigido por Kourosh Ahari. Nele, o diretor examina os segredos que carregamos, a loucura que isso pode trazer junto e muito mais.

O filme já começa de uma forma um tanto quanto tensa. O público é apresentado a Babak (Shabab Hossein ) e Neda (Niousha Jafarian), que estão em uma festa na casa de amigos. O casal se mostra boa parte do tempo apreensivo e aparentemente cansados por precisar dar atenção à sua filha pequena ao longo da noite.

Horas mais tarde, com o término do encontro, Babak, que já estava embriagado, insiste em levar a família para casa. Depois de se perder e quase causar um acidente na estrada, o casal decide passar a noite em um hotel.

O casal exausto se hospeda no grandioso e misterioso Hotel Normandie. No entanto, as coisas começam a ficar estranhas logo após o check-in. Tanto Babak quanto Neda percebem que ficaram presos no hotel, onde são forçados a revelar segredos que esconderam um do outro, sob pena de não mais sair do lugar.

O suspense e tensão são entregues de forma lenta pelo roteiro de The Night. Nos faz lembrar a antiga história sobre o sapo sendo fervido lentamente em uma panela, da mesma forma somos levados à tensão e experimentamos a loucura dos personagens de uma forma vagarosa e impactante.

Grande parte deste clima se deve às atuações de Shabab Hossein e Niousha Jafarian, ambos estão muito bem em seus papéis e nos convencem sem esforço sobre seus problemas conjugais e sobretudo da crescente divisão que ameaça separá-los.

Merece destaque a atuação do ator veterano George Maguire no papel de recepcionista do Hotel Normandie. Ele nos apresenta um personagem sutil e ao mesmo tempo assustador. Em certa cena é impossível desviar o olhar de seu pequeno monólogo apavorante.

Infelizmente, a atuação de Michael Graham no papel de um policial, mesmo que de forma breve, destoa das demais participações do filme. Sua entrega foi demasiadamente exagerada e acabou contrastando demais com seus parceiros em cena. Difícil não notar.

Muitos expectadores farão comparações entre The Night e O Iluminado (1980). O Hotel Normandie parece um local mal-assombrado, a direção de fotografia traz tomadas longas pelos corredores, mostra um salão de baile abandonado e, como não poderia faltar, crianças fantasmas. Essas particularidades são, no mínimo, uma bela homenagem ao cultuado filme de Stanley Kubrick.

No entanto, The Night é um filme com identidade própria. Cortes de edição requintados são usados para realçar a loucura que rapidamente toma conta de Babak e Neda, o público é levado a questionar a sanidade dos personagens e se os eventos que estão ocorrendo são verdadeiros.

Kourosh Ahari estreia de forma firme na direção. O filme é psicologicamente atraente, os jump scares e plot twists são entregues de forma eficaz, utilizando bem a trilha sonora para o máximo impacto das cenas. O compositor Nima Fakhrara nos apresenta uma seleção musical que amplifica ainda mais a tensão do roteiro.

The Night é uma produção em grande parte iraniana filmada nos Estados Unidos e é o primeiro filme produzido na América a obter licença para lançamento nos cinemas do Irã desde a revolução daquele país. Além de um marco cultural é uma grata surpresa do gênero terror psicológico.